segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Figura Carimbada


Em um dia qualquer, andando na calçada da minha rua, esquentada por um sol de quarenta e quatro graus, na minha velha bicicletinha eu pedalava nas ruas da vila militar de Amambai. Na rua do outro lado da minha, percebi que uma mudança estava sendo descarregada e aquilo anunciava a chegada de uma nova família na vila militar. Novos amigos, quantos filhos teria o novo morador, seria menino, menina ou os dois.
Diminuí as pedaladas fazendo dos pés os freios que arrastava o kids no chão quente e com os olhos esticados em direção à casa vejo uma menina, pouco mais de dez anos, loirinha, linda. olhei e fiz uma gracinha qualquer e a danada me respondeu mostrando a língua e rapidinho, feito garça espantada, entrou casa adentro. Fiquei apaixonado.
Fiquei ali parado, sem jeito, sem saber o que fazer. Aí então apareceu a figura; esta que está aí em cima, era o irmão da Talci, aquela danada que me mostrou a lingua.
José Jardim de Matos. Esse é o cara. Zézinho simplesmente. Rapidamente ficamos amigos e juntos, com o resto da gurizada, as aprontadas foram acontecendo no dia a dia daquele lugar onde o tempo desobedecia a qualquer tipo de relatividade.
A primeira das nossas grandes idéias foi aquela com uma ninhada de gatos que encontramos em um lugar qualquer. E agora, o que fazer com a duzia de lindos gatinhos?
O Zé teve a grande e genial idéia: Com uma tábua de mais ou menos um metro de comprimento, fizemos uma espécie de alavanca; com o pé direito o zé firmava uma das extremidades da tábua e a outra ponta era segurada com uma das mãos, e os gatinhos eram colocados no chão, debaixo da extremidadeda tábua que estava sendo segurada com uma das mãos; a tábua então era levantada a uma altura de meio metro e com um dos pés a tábua era empurrada para baixo e os pobre gatinhos eram - literalmente - esmagados. Pura crueldade de piá que não tinha o que fazer.
Outra grande idéia, agora minha: Bem próximo de nossas casas, na divisa da vila com o pátio do quartel, estava a enfermaria - pequeno hospital - do exército. Todos os restos de remédios eram depositados em um lixão sanitário a céu aberto, sem nenhum cuidado e ali eram deteriorados pelo tempo e pelo sol.
Juntamos todos os restos de vidros de remédios e ampolas de injeção que encontramos e disto surgiu a fórmula maligna, líquido escuro e gosmento que teria um destino.
Algumas galinhas, sem dono, andavam soltas pelas ruas da vila e pegar uma delas para aplicar-lhe uma boa dose da nossa fórmula estranha não foi dificil. Um pegava a ave penosa e outro injetava o líquido gosmento.
A galinha era solta, saia cacarejando, dava alguns passos e poucos metros adiante, caia morta.
Logo tratavamos de esconder nossa vítima porque, caso descobertos, a coisa iria ficar feia para nosso lado.
Posso garatir que não havia rotina em nossos dias.
Nem as idas para a escola, todos os dias, alguns de manhãs e outros a tarde tinham a chatice da mesmice.

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